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tenaz

TENACidades 

quinta-feira, abril 11, 2013

00:17 -


Lore não sabe o que fazer. O mundo parece ter subitamente enunciado a sua face oculta e tudo aquilo em que acreditava parece nada poder contra a irreversibilidade da verdade.

A paisagem desconhecida que atravessa é de facto o horizonte da sua incredulidade. Lore não reconhece o meio que é o seu, o da sua infância, o da familiaridade. «If everything Lore [...] has been taught is wrong […] she might as well be walking on the moon.» A floresta virgem é a alma a transbordar medo. Medo de existir e medo de escolher. E o desespero a nova força subcutânea que ameaça eclodir a qualquer momento, mas numa erupção que apenas pode redundar em coisa nenhuma: mais perguntas sem resposta, mais faces inexpressivas a tentar fugir de si mesmas e da verdade que agora consome silenciosamente o seu respirar.

E todo o Império cai a seus pés. Ali, sem espernear nem reclamar um último desejo. O castelo de mentiras sucumbiu e o baralho de cartas que o edificava tomba ao mesmo tempo que retoma a sua condição original. A natureza reclama o seu reequilíbrio inevitável.

Enquanto Lore desfolha avidamente todas aquelas fotografias, ela está de facto a mergulhar nas memórias que não são as suas: as da mentira, anos a fio alimentada intravenosamente dando uma fenomenal solução à equação irresolúvel, como se da peça em falta do puzzle se tratasse; como se um novo alinhamento astral surgisse, e nos permitisse calmamente repousar na tranquilidade das respostas, aquelas cujas perguntas agora já ninguém consegue sequer ter a certeza de alguma vez ter feito. A cada face feliz naqueles papéis a preto-e-branco com que cruza o seu olhar está uma história sobre ser, de tantas maneiras e tão maravilhosas, à espera que nelas repouse a curiosidade e o desejo de amar. O momento de beber o desejo de viver em paz consigo e com a verdade que há-de vir, sinuosa e inevitavelmente.

O momento em que pisa letalmente aquele angelical veado de loiça é afinal o momento em que se dispõe a viver no mundo novo, agora emergente, quebrando em fáceis formas geométricas o fino gelo que o separa do calor mundano. O mundo em que as mentiras já não têm direito a um palacete vitoriano à beira-rio, e em que a verdade vai ser mais impetuosa do que o que todos estão preparados para enfrentar.


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