Lore não sabe o que fazer. O mundo
parece ter subitamente enunciado a sua face oculta e tudo aquilo em
que acreditava parece nada poder contra a irreversibilidade da
verdade.
A paisagem desconhecida que atravessa
é de facto o horizonte da sua incredulidade. Lore não reconhece o
meio que é o seu, o da sua infância, o da familiaridade. «If
everything Lore [...] has been taught is wrong […] she
might as well be walking on the moon.» A floresta virgem é a
alma a transbordar medo. Medo de existir e medo de escolher. E o
desespero a nova força subcutânea que ameaça eclodir a qualquer
momento, mas numa erupção que apenas pode redundar em coisa
nenhuma: mais perguntas sem resposta, mais faces inexpressivas a
tentar fugir de si mesmas e da verdade que agora consome
silenciosamente o seu respirar.
E todo o Império cai a seus pés.
Ali, sem espernear nem reclamar um último desejo. O castelo de
mentiras sucumbiu e o baralho de cartas que o edificava tomba ao
mesmo tempo que retoma a sua condição original. A natureza reclama
o seu reequilíbrio inevitável.
Enquanto Lore desfolha avidamente
todas aquelas fotografias, ela está de facto a mergulhar nas
memórias que não são as suas: as da mentira, anos a fio
alimentada intravenosamente dando uma fenomenal solução à equação
irresolúvel, como se da peça em falta do puzzle se tratasse;
como se um novo alinhamento astral surgisse, e nos permitisse
calmamente repousar na tranquilidade das respostas,
aquelas cujas perguntas agora já ninguém consegue sequer ter a certeza de
alguma vez ter feito. A cada face feliz naqueles papéis a
preto-e-branco com que cruza o seu olhar está uma história sobre ser, de tantas maneiras e tão maravilhosas, à espera que nelas repouse a curiosidade e o desejo de amar. O momento de beber o
desejo de viver em paz consigo e com a verdade que há-de vir,
sinuosa e inevitavelmente.
O momento em que pisa letalmente
aquele angelical veado de loiça é afinal o momento em que se dispõe
a viver no mundo novo, agora emergente, quebrando em fáceis formas geométricas o fino gelo que o separa do calor mundano. O mundo em que as mentiras já não têm
direito a um palacete vitoriano à beira-rio, e em que a verdade vai
ser mais impetuosa do que o que todos estão preparados para
enfrentar.