João diz: "Vou para casa e esquecer tudo."
O que sente é um composto relativamente mesclado de tudo, um trejeito complicado de nada. É um estado que ele, obviamente, não consegue caracterizar. Não sabe o que sentir. Se calhar o que está mal é isso mesmo, não sentir nada. Não é um vazio, porque está cheio. Só que está cheio de nada, um nada amorfo e sem qualquer familiaridade na sua cor. Pensa: "É vazio." Mas não é. É mais atroz que isso: é a ausência de tudo. É não estar a destilar ódio, é não estar radiante de amor; é nem a doce musa da indiferença lhe dar a mão.
Faz calor.
Que sensação tão agradável. Estimula todos os nossos sentidos na direcção da calma, da serenidade, da satisfação. Pensamos: será possível? Mas logo varremos esse princípio de incerteza da nossa mente. Não, estamos bem assim. Que propósito vai servir a incerteza no nosso espírito agora? Ondas de enturpecimento percorrem os membros, e todos os sitios onde chegam essas vibrações de bem-estar, parecem estar a ser inundados pelo rio celeste.
Há medida que sente um doce fulgor nadar-lhe pelos sete rios do corpo, apercebe-se que está drogado. Ter esta consciência é bom, pensa, é sinal que consegue vencer a luta pelo seu próprio controlo com a substância alterante. Mas, num último surto de julgamento racional, é forçado a cair na realidade: isso não faz sentido. Por isso, a única coisa que acha razoável concluir é que já embarcou na doce nau da viagem pelo mar da surpresa.
João não sabe o que fazer. Lutar? Contra o quê, questiona-se. O desconhecimento prático do inimigo que enfrenta põe-lhe muitos problemas. Ou melhor: mais uma vez, é a ausência dos problemas que isso lhe põe que o perturba. E é este entorpecimento emocional, este nó que os seus músculos não têm e que por isso não pode ser desatado que o condena a uma existência na qual não pode evidentemente haver salvação.
segunda-feira, outubro 27, 2008
19:14 -
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