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tenaz

TENACidades 

terça-feira, abril 16, 2013

05:05 -

Não sei porquê, sempre gostei do cheiro de Espanha. Aquele cheiro mesclado entre alcatrão e cimento novo, tonificado por uma certa frescura no ar, típica dos dias precaventes ao Verão. Provavelmente um cheiro que contém também uma camada de aroma a dejetos, espalhados um pouco por toda a via pública, esquecidos à espera que o tempo se encarregue deles, sempre aparentando estarem prestes a dissipar-se ao virar de página do dia seguinte. Parece sempre ser o cheiro ao dia de amanhã. Talvez seja por isso que goste dele; cheira a novo, cheira a folha branca à espera de ser escrita. Cheira a halls de entrada com ladrinho a brilhar e a escorregar de tanta limpeza -- parece até incrível que resistam incolumemente à provação de todos os tipos de calçado sem acumularem quaisquer riscos -- e surpreendentemente cheira a fragrância de bosque selvagem.

Meu Deus, se pudesse ficava aqui para sempre. A noite cai levemente e o dia levemente se levanta. Todos os dias de madrugada, as estradas invadem-se de carros que não têm demasiada pressa em chegar a lado nenhum, e o ar pragueja calma e serenidade. Não fica nada por dizer, aqui. O tom das pessoas augura que as palavras não ficam encravadas numa forma ténue de sentir, nem num temperamento dúbio evitante de conflito. E já que falamos das pessoas, há que não tentar contornar que também aqui elas estão entregues a si próprias e às concepções que albergam do mundo. Também aqui nos cruzamos com caras introspetivas de preocupação todos os dias ao deslizar pelo metro.

E não, não quero conhecer mais do que simplesmente a minha cidade. Não tenho curiosidade em ver até onde esta maneira de estar e ser vai, até onde estica na sua amplitude, e as variações que comporta noutras versões de si mesma. Não quero porque sei que nada é para sempre, e a solução que neste momento encontro para mim e que me trouxe alguma tranquilidade naturalmente tem também um prazo de validade, que só pode ser antecipado se a minha sede de conhecer fizer transbordar a minha consciência sobre a física de existir.

Espanha há-de sempre cheirar a isto e nisso posso sempre encontrar um ninho seguro e confortável. E eu hei-de sempre ser um estranho por cá. Isso é inevitável. Até à próxima vez que por aqui alterne.


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